A Propósito de… |Jorge Carreira Alves

Recomeço

Recomeço? Quantas vezes, em quantas ocasiões, declaramos que vamos retomar um percurso abandonado, uma obra deixada a meio, uma intenção que esmoreceu e se deixou esquecida? Quantas vezes nos reaparecem imagens, nos surgem vontades que ganharam nova relevância, encontramos novos motivos para retomar percursos, para reacender a chama de alguma ideia que julgávamos extinta?
Porém, a questão que se coloca é se, na realidade, o caminho outrora abandonado, a obra inacabada, a ideia presumivelmente perdida serão ainda os mesmos caminho, obra e ideia que deixámos nesse passado e que haviam perdido sentido para nós? No meu caso, quando penso no meu percurso de vida, não considero que tenha havido em alguma ocasião nem em alguma circunstância qualquer recomeço, pois, através das minhas opções, através dos caminhos que escolhi ou que me foram impostos, tudo se tem vindo a conjugar como uma sucessão mais ou menos lógica de aprendizagens e aquisições, nunca recomeçando realmente, porquanto, há todo um conjunto de aprendizagens e experiências que fazem com que o caminho retomado já seja completamente outro.
Poder-se-á argumentar que, na sucessão dos ciclos naturais (dias/noites ou estações do ano), nós vivemos uma continuidade cíclica de momentos que se repetem, mas, se observarmos bem, nenhum dos dias vividos por nós (e por mim já passaram uns milhares) são iguais, nunca os vivemos da mesma forma, nem nos deixam as mesmas marcas na memória. Assim, também na sucessão dos ciclos da nossa vida: nunca nenhum ano letivo foi igual ao anterior nem será semelhante ao que se lhe segue, nenhuma das nossas relações (de amor ou de amizade) são idênticas nem nos propiciam as mesmas aprendizagens, etc, etc… por isso, como em cada passo deste caminho caminhado ultrapassamos sempre novos desafios e temos por proveito a aquisição de novos conhecimentos, considero que nunca recomecei nada; talvez tenha retomado caminhos anteriormente abandonados, mas para prosseguir em direções distintas, porquanto, se for para repetir tudo o que fizemos anteriormente, só demonstramos que muito pouco ou quase nada aprendemos.
Talvez por isto, aqueles jogos em que se constroem estruturas delicadas, facilmente abatidas por uma peça mal colocada ou por um toque involuntário, nunca me atraíram, nunca tive paciência para construir castelos de cartas ou fazer construções arriscadas com peças de dominó, coisas que facilmente teria que reconstruir por causa de qualquer acidente mais que previsto, nem me atraíam os puzzles que só têm piada da primeira vez que são feitos. Por isso, quando me era dado jogar algum destes jogos, o meu maior gozo era fazer o que não era expectável, mesmo que o resultado final fosse ridículo.
Por tudo isto, quando vejo as pessoas a fazerem grandes promessas de se transformarem, de irem adotar atitudes diferentes quando se inicia um qualquer novo ciclo, quando dizem que vão recomeçar tudo de novo e que, indo percorrer os mesmos caminhos irão fazê-lo de maneira completamente diferente, desconfio e não acredito, pois, para mim, a vida só tem sentido se formos construindo o nosso caminho com os nossos saberes e as nossas experiências, um caminho feito inteiramente da nossa vontade, porquanto, como diz o poeta espanhol António Machado: “o caminho faz-se caminhando” e tem sempre que rumar a algum futuro.

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