Ana Margarida Silva| Murmúrios Fotográficos

O sorriso de mãe e filha, qual cálido cantinho de jardim…

Naquela delicada manhã, o Sol brandamente afugentava a aragem da madrugada. Mãe e filha aninhavam-se ambas, de olhar murmurante. Deixavam que o desmedido afeto que as unia se vertesse na carta recebida, também ela plena de um intenso Amor, que caudaloso se derramou, com suas mágicas ondas, por todo o espaço envolvente... Dos olhos entornados, vinha desaguar no coração de ambas o Amor, que não se domiciliava apenas no peito, mas irrompia em redor, fluindo em torrente pela cinza dos dias, jorrando pelo dourado dos momentos felizes, aconchegando a alma qual cálido cantinho de jardim. Partilhavam um amor vivido e vistoso, renovado e retemperado diariamente, que dilatava o viver de ambas e anulava a relativa relevância das rugas da mãe. Naquele precioso momento de partilha de almas, o deus Cronos submeteu-se à energia emanada pelos dois corações humanos e, agrilhoado, adormeceu, vencido que fora pelo Amor redentor que, ali, inundava o espaço. Naquela pausa de tempo congelado pelo rio de desmedido afeto que se materializou, o narrador suspendeu a prosa, cativo que ficou também no tempo que acabara de se desprender da máquina do relógio. Pouco lhe importou o teor da carta: bastou-lhe que fosse portadora de boas novas, para que houvesse fundamento para, delicadamente, colocar uma pontuação que mantivesse a discrição sobre o seu conteúdo. Na verdade, foi outro o motivo que lhe pareceu ser digno de atenta observação… Havia fitado o sorriso desenhado no rosto materno, percebera-lhe as inofensivas rídulas que lavraram na comissura dos lábios e em redor dos olhos, percebera que a troca de sentimento efetuada pelo olhar e pelo sorriso não pertencia à esfera terrena e que dificilmente conseguiria captar o âmago de tal sentimento pela palavra, ainda que fosse bafejado pela eloquência e inspiração criadora. Considerou, com algum espanto, que o dicionário oferecia uma árida definição de sorriso, colocando a tónica na “expressão facial”, no “movimento silencioso de extensão dos lábios para os lados e de elevação dos cantos da boca”, na “exibição dos dentes frontais”. Ressentiu-se com o autor do verbete que parecia estar a anos-luz da essência do sorriso, tendo-lhe captado apenas os movimentos mecânicos, olvidando-lhe a beleza e o rumor interior que o faziam manifestar-se à flor dos lábios. Percebera o narrador que existindo um sem número de sorrisos, o que acabara de presenciar entre mãe e filha lhe pareceu uma golfada de fresca água de repuxo em aprazível cantinho de jardim… E enquanto o tempo suspendera o seu propósito, o ambiente tornara-se amniótico, o precioso líquido gargalhava, a embeiçada tinta da carta diluíra-se, ofertando um azul etéreo que agasalhou mãe e filha. O Amor era o lastro do sorriso e tornado transcendente, por laços invisíveis e inquebrantáveis, o Amor ultrapassaria e viveria para além do final dos Tempos, inundando os quatro cantos do universo.

 

 

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