A Minha Voz Conta! | Daniela Gomes

Às vezes tenho pesadelos do sol a dissipar-se na névoa da seca, da areia. Não chove há semanas! choro eu na cama. Sinto-me impotente perante a ganância dos outros, sacrifico tanto por todos nós! O mundo grita de dor, manda furacões e desastres que nos afligem, mas não nos fazem acordar. O calor do sol sabe-me bem na pele, mas a que custo? A chuva não cai a tempo de nos salvar do emurchecer precoce da primavera. Quando não tivermos o que beber, nos perguntaremos, porquê? Porque existem pessoas que se sentam na banheira, todos os sábados, com taças de champanhe e uma visão turva e privilegiada da vida, do plástico que as envolve e as separa da realidade. Enquanto comem um bife gorduroso de vaca num prato de porcelana esbelta, outros passam fome na terra da secura, África, o continente que mais produz centeio para gado. A primeira vez que me apertou o coração foi saber que a roupa que usava era costurada a fio de suor, por pessoas que não eram remuneradas o suficiente para uma vida digna, e de que eu iria jogar essa mesma peça de roupa mal-usada no lixo, meses depois, e o seu fio de nylon de baixo custo ia durar mais tempo neste planeta do que eu mesma. Parei, senti-me horrorizada pelo meu acordar súbito de que o planeta estava a morrer; não sabia o que fazer. Como pude ser tão cega e egoísta este tempo todo? Não consegui dormir mais noites nenhuma de paz, na minha cama de madeira, que outrora fora uma árvore plantada na terra. Não comprei roupa durante meses depois do despertar consciente de que eu tinha que agir. As escovas de dentes, escovas de cabelo, substituídas por madeira. Os recipientes, de plástico, substituídos por vidro, as roupas compradas em segunda mão. Não como carne, não uso sapatilhas brancas porque se estragam rápido e facilmente. Mais vale comprar antigo, visto que a moda de hoje em dia serve apenas para algumas estações, a moda muda, as pessoas mais vaidosas vão atrás das celebridades, parecem todos a mesma pessoa. Planto os meus próprios tomates, compro na mercearia, no mercado, compro localmente. As laranjas até sabem melhor sabendo que foram obtidas de uma troca entre vizinhos. As caminhadas fazem bem às pernas e a brisa fresca limpa os meus pulmões melhor quando não há carros por perto, só eu e a minha bicicleta. Apesar das minhas rotinas não serem egoístas, não são invisíveis, gasto como os outros: ando de carro, ainda compro por necessidade, como chocolates revestidos a plástico. Há ocasiões em que consumo peixe, porém, consumo conscientemente. Jamais quero contribuir para a realidade de que a minha espécie poderá entrar em guerra por escassez de recursos naturais, recursos não renováveis. Não pensam mais nos pinhais verdes nem em escutar o som dos passarinhos. A natureza está a ser silenciada pela praga mais mortífera de todas, o ser humano. Infelizmente, é a realidade que tenho! Por vezes queria ser uma zebra e morrer sem saber que caçador me matou, ou porquê, para comer ou me esfolar. Gostava de não viver na ânsia de que estamos em perigo iminente da rutura social, de uma revolta verde, que as pessoas se cansem por fim de serem mortas pelas consequências das ações dos pais, e dos avós, e dos bisavós, que nada fizeram para preservar o nosso belo orbe de vida milagroso. Tomo banho, regra de 5 minutos, 10 se tiver que rapar os pelos das pernas. Lavo os dentes com o copinho de plástico, uma escova e pasta, para lavar os dentes é o que me basta. Guardo a água da chuva, tenho medo de a beber por conta das chuvas ácidas, mas dou-a ao meu gato e às minhas plantas, que agradecem. Ou ando de carro com a minha mãe, ou de autocarro, mas prefiro bicicleta. Tenho uma perna de aço, sempre dancei e sempre andei para todo o lado, fones dos ouvidos, pastilha na boca e mãos nos bolsos, todo o caminho se faz a correr quando somos pensadores. A minha roupa conta histórias. Cada peça possui uma familiaridade diferente, um parente a quem foi “furtada”, desde os meus avós, ao meu tio, da minha mãe ao irmão, ninguém fica ileso a “furtos” de vestuário. Existem peças que uso hoje em dia mais velhas que eu, com mais donos que eu namoros, mais história que alguns meses de uso, num cabide escondido no fundo do armário, uma vida completa até os buracos e as fibras já não se assentarem nos meus ombros. O material é gasto e confortável, as cores mutadas e leves, intemporais. Não é moda, mas sou eu. Eu sou a moda. A vida é muito engraçada! Complexa de uma forma tão rica e cheia de cores, cheia de becos, dúvidas, perguntas e respostas. Tudo parece estar interligado, se captarmos os sinais à nossa volta e nos conectarmos com o mundo, fora do que nos é apresentado como sendo real, fora de nós mesmos, a vida floresce. Quando pensamos no próximo como sendo um ser humano, consciente, uma entidade individual, porém, nosso semelhante. Um ser igual a nós, não importa a cor do cabelo, ou o género, ou a fonética de suas palavras, ou a sua cultura, somos iguais, distantes, fora dos mesmos espectros de identidade, mas humanos. Mereço ser castigada por outros seres humanos, que violam o meu planeta, o ar que respiro? Não só pela sua ignorância como também pela sua vontade de assim permanecer? Não mereço pagar pelos erros dos outros, mas se ficar parada a achar que posso simplesmente viver a paz, sem fazer esforços para a proteger, só estou a contribuir para o problema, estou apenas a observá-lo de longe. É por isso que temos que ter voz ativa, não só expressar as nossas opiniões oralmente, como também dar o exemplo. Estou consciente finalmente de que a única arma que tenho e devo utilizar sou pura e simplesmente eu, é um abre olhos tremendo e uma transgressão de realidades. Depois de muitos anos de revoltas das irmandades feministas as quais pertenço, foi-me garantida a liberdade por outros seres humanos que lutaram por mim. Por nós. É esse o segredo da vida em si, da humanidade, agir em prol do coletivo, contribuindo individualmente para o bem comum, sem nunca deixarmos os nossos sonhos abaixo dos nossos semelhantes. A semente que plantas hoje vai dar aos teus herdeiros fruta para comerem. Sim, faço todas estas decisões ecológicas para o nosso bem de hoje, do presente que nos foi dado, mas seria egoísta de mim pensar que posso consumir o meu presente, sem pensar antes no meu futuro. No passado dos que lutaram por mim, que se sentiriam desapontados pelos esforços em vão que até aqui a humanidade fez. Cego pelo poder, dinheiro, consumismo, vaidade e ganância, o planeta que a humanidade conheceu por séculos, está a morrer. Talvez uma grande extinção, ou outro vírus ainda mais potente apareça de rompante, tirando o ar dos nossos pulmões, da nossa vida, finalmente, talvez a humanidade se renda aos seus erros. Que venham as nuvens escuras e o temporal, por favor! Que a chuva lave a seca e varra o tempo que desperdiçamos, dia após dia. Que venha o dilúvio e que nos leve para um novo recomeço, longe do pecado.

 

 

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