Um mês, um curso


Alice Marques

Técnico Auxiliar Protésico com alunos muito motivados
Entrevista a Fátima Carvalho
Fátima Carvalho é professora de Biologia na Calazans Duarte há 13 anos. É presidente do Conselho Geral há 4. Foi durante 7 anos professora e diretora do Curso Profissional de Técnico Auxiliar Protésico. Em entrevista ao P&V faz uma avaliação de diversos aspetos do curso e deixa um desafio: “a direção da escola e a do IPL deviam pensar na criação de um TESP que podia ser uma porta para cursos superiores nesta área”.

Alice Marques (P&V): Quem são os alunos que escolhem o curso profissional Técnico Auxiliar Protésico?
Fátima Carvalho: A maior parte deles tem sido alunos que queriam seguir Ciências e Tecnologias mas tinham algumas dificuldades em Físico-Química e Matemática. A maioria, bons alunos. Vinham com expetativas baixas para este curso, mas elas foram subindo e muitos terminam já com intenção de prosseguirem cursos superiores, incluindo Medicina Dentária.
P&V: São alunos da Calazans ou também de outras escolas?
FC: São essencialmente da Calazans e excecionalmente também de outras escolas do concelho.
P&V: São alunos motivados?
FC: A maior parte, sim. Muito motivados, muito envolvidos no trabalho do curso.
P&V: Tem sido um curso mais frequentado por raparigas do que por rapazes. Tens uma explicação para isso?
FC: Os primeiros não eram tão desequilibrados em termos de género, mas agora sim. Vou arriscar uma justificação: se calhar os rapazes não se veem numa profissão em que passam o dia sentados! Ou talvez os rapazes sejam ainda mais preconceituosos quanto à escolha destes cursos profissionais. Mas posso dizer, com certeza, que as raparigas que escolhem este curso escolhem com convicção.
P&V: Verificamos que há várias alunas indianas neste curso. É uma escolha delas ou um encaminhamento?
FC: É sobretudo encaminhamento feito pela psicóloga, depois de falar com alunas e pais. Parece-me que, para quem tem dificuldades na língua portuguesa, este é o curso com um caráter mais prático, portanto onde a barreira linguística pode ser mais fácil de ultrapassar.
P&V: Há abandono escolar neste curso?
FC: Não. É abandono zero! Creio que só tivemos um aluno do segundo curso que abandonou. Mas claro, há os que não acabam nos 3 anos; são raros mas existem.
P&V: Os laboratórios da escola estão bem equipados para as práticas oficinais?
FC: Sim, neste momento estão muito bem equipados.
P&V: Qual é a formação dos professores da área técnica? Donde vêm?
FC: São técnicos protésicos, com formação superior. São da Marinha Grande ou de Leiria. Ou Porto, como é o caso da atual formadora.
P&V: Tem sido possível arranjar local de estágio para todos?
FC: No início foi um pouco complicado. Porque os laboratórios e consultórios não mostravam abertura para receber estagiários. Devemos ter em conta que alguns protésicos mais antigos só tinham como formação a sua experiência profissional. Mas à medida que começaram a ver que os estagiários eram mão de obra qualificada, foram-nos aceitando cada vez melhor.
P&V: Quais são esses locais de estágio?
FC: São laboratórios e consultórios ou clínicas. Na Marinha Grande há um laboratório e vários consultórios, clínicas. Um bom laboratório tem várias salas e permite a especialização em diferentes áreas da prótese dentária. Alguns alunos fizeram estágio em Leiria e também já tivemos alunos em Pombal e Figueira da Foz. E em Lisboa! E ficou a trabalhar lá. Isso foi possível porque tinha familiares lá e resolveu-se o problema do alojamento.
P&V: Quais são os critérios para colocar os alunos no estágio?
FC: A técnica protésica, formadora das práticas oficinais, encaminha os alunos de acordo com as suas aptidões e competências.
P&V: Qual é feeback que tens do desempenho dos alunos nos estágios?
FC: É bom. A melhor prova é que alguns ficam a trabalhar onde estagiaram. Mas quem melhor para falar disso do que os próprios protésicos?
P&V: Claro. Irei falar com alguns. Falemos agora das Provas de Aptidão Profissional. Que tipo de projetos fazem?
FC: Os alunos escolhem na área das próteses e podem apresentar como produto final uma prótese acrílica, uma esquelética; ou podem optar por um projeto em higiene oral. Tem a ver com as aptidões e competências que desenvolvem ao longo do curso.
P&V: Disseste que alguns alunos têm também a expetativa de prosseguir para o ensino superior. As disciplinas da área científica preparam-nos para isso?
FC: Sim, os conteúdos são suficientes. Claro que têm de fazer os exames de acesso e os cursos profissionais têm uma carga horária muito grande, com PAP e Estágio final no último ano. Alguns alunos pensam fazer tudo ao mesmo tempo, acabar o 12º e candidatar-se logo nesse ano, mas é sensato passar mais um ano a preparar-se para o exame de acesso. Por isso é que eu tenho vindo a pensar, e já falei nisso, que a direção desta escola e a do IPL devem fazer uma parceria com vista à criação de um TESP que, quem sabe, poderia ser a porta aberta para o IPL vir a criar cursos superiores na área das próteses e higiene dentária. Espero que consigam colocar, na preenchidíssima agenda, esta prioridade!
P&V: Quando começaste a trabalhar neste curso, tinhas a mente completamente aberta ou alguma reserva em relação ao tipo de alunos que escolhem esta via?
FC: Tinha muito baixas expetativas. Achava que ia encontrar alunos com poucas capacidades, com problemas de comportamento. Mas não foi nada disso que encontrei. Tive sempre alunos muito bons e muito interessados. E se havia alguns problemas de comportamento, foram neutralizados nas turmas. Hoje acho que escolher um curso profissional é uma opção como outras, e não há estigmatização destes alunos. Isso tem acontecido, penso eu, com todos os professores.
P&V: Os preconceitos nascem da ignorância, certo?
FC: Inteiramente de acordo. À medida que vamos trabalhando com alunos dos cursos profissionais percebemos que não há razão para os menorizar. São bons cursos. Se assim não fosse, o mercado de trabalho não estaria aberto a receber estes profissionais.
P&V: A quem aconselharias este curso?
FC: A jovens que gostem de trabalho metódico, minucioso, que sejam muito pacientes e tenham alguma habilidade na motricidade fina. E claro, que estejam abertos à atualização constante, mas isso já se sabe que é preciso para todos os cursos sobretudo os de natureza técnica.