Textos & Afins


Anaísa Lucena

Cinquenta tons de cinza

Alossexual - pessoa que experiencia atração sexual, termo conhecido apenas por uma minoria de pessoas. Afinal, todos somos alosexuais, certo? Todos nós nos sentimos atraídos por alguém que não conhecemos e perguntamos, pesquisamos, fazemos o que for preciso para descobrir aquele nome e seguir a pessoa nas redes sociais, talvez arriscar e mandar um “olá” no instagram na esperança de desenvolver uma relação. Tudo bem, talvez nem toda a gente chegue assim tão longe, talvez fiquem só a idealizar o momento em que consumam o desejo durante... 10 segundos, antes de voltarem às suas vidas. Problema? Nem todos os seres humanos sentem desejos carnais antes de se apaixonarem. Sim, os assexuais existem, junto com os demissexuais, os gray-assexuais e um monte de outros rótulos que é impossível recordar. Podia explicar o que cada um destes termos significa, mas ninguém teria paciência para ler tudo. Estas pessoas, que se encontram no espetro cinza da sexualidade, não só os nerds da matemática e da física que preferem fazer equações a conviver com os outros (mas tenho a certeza de que todos acham que relações nunca serão tão interessantes como equações paramétricas, ou talvez seja só eu...), mas qualquer pessoa. Uma minoria que não é constituída por pessoas “esquisitas” ou “exigentes demais”, mas apenas sem interesse.
Pessoalmente, conheço uma rapariga demissexual que namorou com o rapaz mais feio da turma, aquele que ninguém espera que namore com alguém até pelo menos aos trinta anos. Porquê? Porque para ela a aparência externa é o menos importante. Nunca houve nenhum contacto físico, além de darem as mãos uma vez, quando a relação começou a ficar séria.
Ao contrário do que muitos possam pensar, indivíduos no espetro cinza da sexualidade, incluindo assexuais, apaixonam-se. Não todos, obviamente, existem os arromânticos, mas não vamos entrar por aí. Não é o amor carnal a que estamos habituados a ver retratado nos filmes, nos livros e nos corredores da escola, é um amor puro, que alimenta os prazeres da alma e do espírito. No entanto, nem tudo é um mar de rosas. É preciso mais de um ano de amizade e empatia para um "cinzento" se apaixonar por alguém, o que na era das tecnologias e das amizades descartáveis é praticamente impossível. Já para não falar que não são todos os alossexuais que aguentam uma relação com pouco ou nenhum contacto físico.
Imaginem um mundo em que vos é igual olhar para um rapaz ou para uma rapariga, o sentimento é exatamente o mesmo. Apenas pensam se a pessoa é bonita ou não. Não têm interesse em seguir nas redes sociais o rapaz que tira fotos sem camisola ou a rapariga de bikini, não têm um "tipo ideal", nem vão a festas em busca de casos de uma noite. Não há amor à primeira vista, nem traições.
Esta é a estranha realidade de um por cento da população mundial. Agora imaginem o que é pertencer a esta minoria e passar a vida a achar que se tem algo de errado, a perguntar-se o que se passa e não obter respostas. O mundo está sempre a recordar-nos para aceitarmos os homossexuais e o resto da comunidade lgbt, mas porque é que nunca ninguém faz referência aos assexuais e ao resto do espetro cinza da sexualidade?