O poder das palavras

José D’Encarnação

(José da Encarnação foi professor na Universidade de Coimbra e é um dos leitores mais assíduos e críticos do P&V. São razões de sobra para o reconhecermos como um colaborador e publicarmos os textos que vai escrevendo sobre ele.)

Folheei o P&V de Outubro, que vai mantendo, porém, textos mais antigos das habituais secções. Para que não se olvidem. Para exemplo e estímulo.

A professora Alice Marques e os professores José Nobre e Carlos Carvalho continuam ao leme, diversificando os rumos, aliciando mais marinheiros para a sua barca, que vai serenamente singrando, a transportar sabedoria. Não uma sabedoria qualquer, mas uma sabedoria de vida.

Claro que apoio de coração os cursos profissionais. «Parentes pobres»? – Não! Outra forma de encarar a aprendizagem, na área em que o estudante se sente mais à vontade, apelando para a sua experiência quotidiana.

Permita-se-me, no entanto, que destaque a eloquência da imagem do menino que chora, impotente, a mão cheia de palavras encavalitadas umas nas outras, atropelando-se, e ele impotente e ela a sufocá-lo numa ameaça de morte. E a frase: «Your words have power. Use them wisely» – «As tuas palavras têm poder. Usa-as com inteligência». É o texto «Século XXI», de Marina Lopes, criado em 2-5-2017, pleno de oportunidade, porque – ao falar de Bullying – é preciso agarrar o touro pelos cornos. E não pode haver paninhos quentes. «Brincadeiras de crianças»? Sim, também eu reinei aos cowboys e matava os índios e nem percebia bem o que estava a fazer, porque ninguém me explicava donde estava o Bem ou o Mal. Gary Cooper era o meu herói – e pronto! O reino da fantasia, da brincadeira real. Agora, não! Não é brincadeira nenhuma!

«Quando a desgraça acontece», escreve Marina Lopes, «todos falam sobre o assunto, todos dizem o quão repugnante é, todos ficam do lado das vítimas e contra os agressores. São todos parte do acontecimento. Mas a verdade é que o Bullying nunca é levado a sério. Nas escolas, quando o “inesperado” acontece, todos dizem que já sabiam disto e daquilo; no entanto, o director e professores falam em “brincadeiras” de crianças e que “não sabiam que a situação era tão grave”.»

Não queremos «chorar a morte de alguém muito querido». Queremos é que se encare o problema de frente. Com toda a coragem!

Também para estes alertas é imprescindível «serviço público» o papel que P&V, denodada e exemplarmente, desempenha na Calazans Duarte. E que nunca lhe doam as mãos!

Cascais, 8-10-2017