A Invicta Marquesa de Alorna


Diogo Rosa Heleno

A história de Portugal é tecida por fiapos e fialhos que se dobam num tecido muito rico de episódios fabulosos, poetas magistrais, paisagens exóticas, viagens náuticas, mas que por vezes cobre, esconde personagens que são nomeadas como figurantes, mas são antes protagonistas.
Esposa de Karl von Oyenhausen-Gravenburg – conde austríaco de Oyenhausen-Groewenbourg e do Sacro Império Romano, de família nobilíssima da Áustria, gentil-homem do rei Jorge II da Inglaterra, marechal, entre muitos outros títulos que se listam longamente –, Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre foi mais que Marquesa ou Condessa e pelo que passou revelou ser maior a sua força do que a conjunta de um punhado de tenentes, brigadeiros ou soldados.
Leonor nasceu em São Jorge de Arroios, Lisboa, a 31 de outubro de 1750, em pleno século XVIII, filha do 2.º Marquês de Alorna. A sua família foi perseguida pelo Marquês de Pombal por ter parentesco com a família Távora, uma das mais ilustres casas nobiliárquicas do país que foi culpabilizada por um atentado à vida do Rei D. José e cujos descendentes, por conseguinte, foram perseguidos, julgados e condenados. O Processo dos Távoras, como ficou conhecido, é ainda hoje um tema controverso e não se pode ter a certeza se realmente esta família da alta nobreza foi culpada pelo atentado ou se a condenação foi totalmente motivada pelo Marquês de Pombal. Leonor de Almeida teve, portanto, uma infância atribulada, pois viu os seus avós barbaramente e de forma áspera executados, aos 8 anos, e foi encerrada como prisioneira, com a sua mãe, no convento de São Félix, em Chelas, entre 1758 e 1777, estando o pai encarcerado primeiramente na Torre de Belém e posteriormente no forte da Junqueira, suspeito de conhecimento do crime dos Távoras.
Foi em Chelas que Leonor se dedicou ao estudo de obras como as de Rousseau, Voltaire, Montesquieu e até a Enciclopédia de D’Alembert e Diderot e se entregou à escrita de poesia, que se tornou notícia e alcançou grande fama.
Era costume, na época, os chamados “outeiros”, festas nos pátios dos conventos em que os poetas e vates glosavam os motes propostos pelas freiras. Por de entre os societários da Arcádia surgiam também bons poetas, como Francisco do Nascimento, que, com alguns amigos, começou a ir ao convento de Chelas recitar versos, pedir motes às freiras, na esperança de encontrar a poetisa D. Leonor de Almeida e ouvi-la da grade. Data destes encontros o nome Alcipe, com que eles a celebravam.
Leonor saiu do convento com 26 anos, descrita por Hernâni Cidade, no livro Marquesa de Alorna, Poesias «em situação moral demasiadamente penosa para que a sua poesia pudesse ser um risonho passatempo da época».
Após o casamento com Karl von Oyenhausen-Gravenburg, em português Carlos (Pedro Maria José) Augusto, amadrinhado pela rainha D. Maria de Portugal e princesa do Brasil, Leonor foi viver para o Porto e mais tarde partiu para Viena, onde se revelou notabilíssima poetisa, escritora e ainda pintora.
Aos 54 anos, Carlos Augusto morre e Leonor regressa a Portugal, para as suas propriedades em Almeirim e Almada e entrega-se à educação de seus filhos – Maria Regina, Frederica, Juliana Maria, Carlos Frederico, Henriqueta, Luísa, João Carlos e Leonor Benedita. É em Almeirim que decide pagar uma mestra para ensinar as prostitutas da vila e das povoações vizinhas a ler, escrever e costurar.
Após a morte de seu pai, Leonor parte para Madrid e posteriormente para Inglaterra, por lhe ter chegado a notícia da fuga da Família Real e com receio da entrada dos exércitos napoleónicos em Portugal.
Mais tarde viria a regressar a Portugal, onde faleceu. Aquando da sua morte, na antiga freguesia Coração de Jesus, a 11 de outubro de 1839 (com 88 anos), em Lisboa, Leonor de Almeida Portugal somava títulos de Donatária, Condessa, Morgada, Dama de Ordens, entre muitos outros que transpunham as fronteiras do seu país e perpetuou-se como uma figura maior da cultura portuguesa.
Testemunha de alguns dos eventos mais trágicos da história de Portugal, como o Terramoto de 1755, o Processo dos Távoras ou as Invasões Francesas, Leonor, a Marquesa de Alorna, recusou curvar-se ao despotismo e mando imperioso do Marquês de Pombal, à tirania e opressão de Diogo Inácio de Pina Manique, à vontade absoluta do marido e aos caprichos dos amantes; conspirou pela liberdade, foi presa, exilada e conheceu durante as suas viagens alguns dos maiores protagonistas da Europa das Luzes e do Romantismo.
Toda uma vida sem se submeter à fraqueza hialina e fragilidade que muitos momentos lhe trouxeram faz da Marquesa de Alorna, Alcipe ou simplesmente Leonor de Almeida Portugal uma mulher invicta.
“(…)Meu espírito assim luta; / Apalpa em torno, forceja / Por encontrar uma fenda / Onde entre a luz que deseja, / Um raio refrigerante / De esperança que o conforte; / Veda a abóbada funesta, / Que romper só pode a morte. De multiformes ideias / Um novo terror o oprime; / Todo o alívio lhe é defeso; / Desejo, esperança, é crime.” (in Poesias de Chelas, Imitada de Goethe, de Leonor de Almeida Portugal)

(Fotografia in http://reportersombra.com/letras-no-feminino-marquesa-de-alorna/)