Blade Runner, um filme de culto

Depois de 35 anos, tanto no ecrã como fora dele

, o mundo de Blade Runner regressa às salas, para dar continuição a um dos melhores filmes de culto neonoir de todos os tempos.
Foi assim que Ridley Scott, em 1982, ao inspirar-se na obra de Philp K. Dick (Do Androids Dream About Electric Sheep), deu um arriscado passo em frente no cinema de ficção cientifica, ao lançar Blade Runner: Perigo Iminente. No entanto, o filme não vingou nas bilheiteiras, tendo sido destronado pelo famoso “E.T” de Steven Spielberg. Só mais tarde o filme veio a ser reconhecido, quando Scott lança a Director`s cut (1992), tornando-se numa obra-prima de referência, que agora tem uma sequela inesperada de que ninguém estava à espera, nem mesmo o criador do original (que agora está no papel de produtor executivo).
É agora, com a mão de Denis Villeneuve, que voltamos a este universo futurista, que tem como principal tématica a inteligênia artificial, que, por sua vez, coloca questões que nos fazem refletir sobre a natureza da própria humanidade. Neste sentido, podemos até dizer que se trata de uma espécie de replicante do antecessor, pois Villeneuve consegue manter o mesmo registo grandioso e espectacular do original, respeitando e até atualizando criativamente todo aquele universo detalhado e fascinante sem arriscar em demasia.
Desta vez, K (Ryan Gosling) é o novo blade runner, um replicante agente da polícia de Los Angeles (LAPD) que tem como missão acabar com os modelos antigos e perigosos da extinta Tyrell Corporation, até que, num dia, este desvenda um segredo há muito enterrado, que pode potencialmente mergulhar no caos aquilo que resta da sociedade. A descoberta de K leva-o numa missão para localizar Rick Deckard (Harrison Ford), um antigo blade runner da LAPD, desaparecido há 30 anos. Mais não posso revelar, pois pode estragar a experiência no visionamento do filme. Quanto menos se souber, melhor!
As interpretações foram espectaculares e bem escolhidas. É Ryan Gosling que conduz grande parte do filme, tendo sido feito para este papel, mostrando um estilo e postura bastante seu que acaba por enaltecer o filme. Temos o regresso de Harrison Ford, que, embora tenha estado pouco tempo no ecrã, não desiludiu, demostrando estar ainda à altura da sua personagem com a mesma vitalidade.
As restantes personagens também surpreenderam. A jovem atriz Ana de Armas mostrou um desempenho notável com a sua performance, sendo a inteligência artificial Joi e Jared Leto (interpreta Niander Wallace) o antagonista do filme, revelando ser uma personagem misteriosa e intimidante. No entanto, teve muito pouco desenvolvimento no filme. Robin Wright e Sylvia Hoeks manifestaram-se também de forma poderosa no filme, interpretando personagens com garra e coragem.
Outro dos grandes trunfos deste filme é mesmo o seu espetacular visual, com uma notável fotografia de Roger Deakins e um excelente design de produção (cenografia) entregue por Dennis Gassner. Estes dois mestres conseguem criar, de facto, um grandioso espectáculo audiovisual, uma verdadeira obra-prima que resultou na expansão subtil de um universo distópico e ultrafuturista com uma atmosfera pesada e hostil, que consegue cativar qualquer um que o veja no maior dos ecrãs. É sem dúvida pré-candidato a receber as estatuetas douradas nestas categorias.
Em termos de argumento, também não falha, sendo entregue pelo mesmo argumentista (Hampton Farcher) que já tinha assinado o predecessor, sendo que, deste modo, consegue criar uma narrativa que encaixa perfeitamente no estilo visual do primeiro. Já para não falar da fantástica banda sonora, elaborada por Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch, que fizeram um excelente trabalho, fazendo um tributo à banda sonora do original, criada pelo compositor grego Vangelis, concebendo um som envolvente e arrebatador - o misto entre o velho e o novo -, que resultou bastante bem.
Tudo isto foi a equação perfeita para um filme execional, que demonstra muito trabalho e esforço de todas as partes. O resultado é, claro, uma longa metragem deliciosamente inteligente, dado à sua técnica e visual perfeitos, que acabam por tornar um filme que podia ser chato e aborrecido pela sua duração (163 min.) num filme em que nem nos apercebemos do tempo que passou. Dennis Villeneuve está, mais uma vez, de parabéns por ter criado um filme estonteante e poético, uma sequela tão boa e surpreendente como o original. É com certeza, um dos melhores filmes de 2017.
Link da imagem: http://www.hollywoodreporter.com/news/ryan-goslings-high-collar-new-blade-runner-poster-1000224